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A Mata Atlântica resiste com soluções que florescem em rede



A Mata Atlântica resiste com soluções que florescem em rede

30 maio, 2025

Apesar dos inúmeros desafios enfrentados, a Mata Atlântica resiste, graças ao trabalho integrado de diversas instituições e pessoas que atuam em prol da sua conservação e restauração. Pesquisa científica, criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), ativismo ambiental, arte, permacultura e educação são algumas de uma rede de ações interligadas que se fortalecem mutuamente. É nessa conexão entre saberes e práticas que surgem soluções inovadoras para preservar um dos biomas mais ameaçados e ricos do Brasil.

Na Semana da Mata Atlântica, a Apremavi ouviu organizações parceiras que atuam ativamente pela conservação e restauração do bioma. Confira os destaques dessas iniciativas e saiba mais sobre quem trabalha pela Mata Atlântica em pé.

Conhecer para conservar: a pesquisa científica do Mater Natura

A pesquisa científica ocupa um papel estratégico, especialmente quando conecta o conhecimento técnico à proteção efetiva de espécies e territórios. É com esse espírito que o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais atua há mais de 40 anos, desenvolvendo ações voltadas à conservação da biodiversidade brasileira, com atenção especial à Mata Atlântica e seus ecossistemas costeiros e marinhos.  “Apesar do bioma estar fragmentado e impactado, ainda é biodiverso e possui espécies que precisam ser descobertas e protegidas. Precisamos manter o que temos em pé”, comenta Ana Paula Silva, bióloga e coordenadora de projetos do Mater Natura em entrevista à Apremavi. 

Desde sua fundação, o Mater Natura participou da descoberta de 26 novas espécies da fauna brasileira, incluindo pequenos e singulares habitantes da floresta como o bicudinho-do-brejo (Formicivora acutirostris), um pássaro raro e ameaçado que vive exclusivamente em brejos do litoral sul do Brasil. Sua descoberta, em 1995, e os estudos subsequentes coordenados com a ONG foram decisivos para que a Baía de Antonina, no Paraná, fosse reconhecida em 2017 como um sítio Ramsar – zona úmida classificada como local de importância ecológica internacional ao abrigo da Convenção sobre as Zonas Úmidas de Importância Internacional.

Além das descobertas científicas, o Mater Natura tem papel ativo na criação e estruturação de RPPNs e na atualização de listas de espécies ameaçadas, especialmente em Santa Catarina e Paraná. Os estudos desenvolvidos pela equipe ajudam a identificar bioindicadores, compreender o manejo de sementes e reconhecer a importância das fitofisionomias menos conhecidas da Mata Atlântica, contribuindo para estratégias mais eficazes de conservação.

“Levantamos a bandeira da pesquisa como contribuição para a conservação da Mata Atlântica”, relata a bióloga. Segundo ela, o investimento em conhecimento técnico é essencial para revelar o que ainda não foi descoberto e fortalecer estratégias como a criação de Unidades de Conservação e o manejo de espécies ameaçadas. Investir em pesquisa é essencial: “As pessoas precisam conhecer para poder conservar. Esse conhecimento técnico nos orienta sobre onde e como devemos agir.”

Bicudinho-do-brejo uma das espécies estudadas por pesquisadores do Mater Natura

Bicudinho-do-brejo, uma das espécies estudadas por pesquisadores do Mater Natura. Foto: Aaron Maizlish CC BY-NC 2.0.

SPVS e a produção de natureza em rede: RPPNs que conectam e conservam

Desde 1984, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) atua na proteção da natureza no Brasil, com forte presença na Grande Reserva Mata Atlântica, o maior remanescente contínuo do bioma, entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A SPVS desenvolve iniciativas que unem proteção ambiental, valorização dos serviços ecossistêmicos e desenvolvimento sustentável.

Inspirada em experiências na Argentina, a iniciativa da Grande Reserva Mata Atlântica foi oficialmente lançada em 2018, durante o Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Ela surgiu a partir do conceito de produção de natureza, uma abordagem que valoriza os serviços ecossistêmicos, conecta conservação à economia e propõe um novo olhar sobre paisagens naturais.

Essa visão inovadora propõe que a natureza seja encarada como ativo estratégico e produtivo, capaz de gerar desenvolvimento sustentável por meio de atividades econômicas sustentáveis, como o ecoturismo. A Grande Reserva é uma iniciativa coletiva e em rede, que já reúne cerca de 900 membros entre ONGs, empresas, gestão pública e comunidades locais. Parte do compromisso envolve o diálogo com trabalhadores da região, promovendo inclusão e desenvolvimento socioeconômico. O impacto dessas reservas vai além da biodiversidade: entre 2005 e 2022, só o município de Antonina (PR) recebeu quase R$ 40 milhões em repasses do ICMS Ecológico, oriundos das reservas da SPVS, recursos aplicados, principalmente, nas áreas de educação e saúde.

“O turismo é o carro-chefe da economia restaurativa”, explica Ricardo Borges, engenheiro florestal e coordenador de comunicação da Grande Reserva Mata Atlântica em entrevista à Apremavi. “Essa é uma região que já tinha vocação turística, e a proposta da Grande Reserva ajudou a potencializar isso de forma mais estruturada, com foco em conservação e inclusão social.”

A proposta da Grande Reserva extrapola os limites de uma UC ao propor uma paisagem funcional e interconectada, com trânsito de espécies, atividades econômicas sustentáveis e protagonismo de atores locais. Hoje, a SPVS compartilha essa metodologia com outras regiões da Mata Atlântica e em outros biomas, buscando ampliar a escala.

“A produção da natureza tem o potencial de transformar o Brasil no maior produtor de natureza do mundo”, afirma Ricardo. “Estamos falando do bioma onde vive a maior parte da população brasileira. Se conseguirmos consolidar esse modelo aqui, podemos inspirar outras regiões e enfrentar de forma mais eficaz a crise ambiental global.”

A experiência da SPVS e da Grande Reserva mostra que conservar a Mata Atlântica não é um freio ao desenvolvimento, mas sim um novo motor para a economia, para o bem-estar das comunidades e para a construção de um futuro viável para o planeta.

Paisagem da Grande Reserva da Mata Atlantica na região de Guaraquecaba PR

Reabertura do Portal Guarakessaba na Grande Reserva da Mata Atlântica

Oficina na Grande Reserva da Mata Atlântica

Oficina na Grande Reserva da Mata Atlântica

Reabertura do Portal Guarakessaba na Grande Reserva da Mata Atlântica

Paisagem da Grande Reserva Mata Atlântica na região de Guaraqueçaba (PR), reabertura do Portal Guarakessaba e oficinas. Foto: Gabriel Eloi de Marchi.

Acaprena e o ativismo ambiental histórico e atual

Fundada em 1973 por estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Regional de Blumenau (FURB), a Associação Catarinense de Preservação da Natureza (ACAPRENA) surgiu inspirada por movimentos semelhantes no Brasil e logo se destacou como pioneira do ambientalismo em Santa Catarina. Desde seus primeiros anos, teve papel decisivo em políticas públicas ambientais, como a criação da FATMA (atualmente Instituto de Meio Ambiente de Santa Catarina), da SETMA (atualmente Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde) e da AEMA (Assessoria Especial do Meio Ambiente) na Prefeitura de Blumenau, consolidando sua atuação técnica, política e comunitária, além de apoiar a criação de outras ONGs, como a própria Apremavi.  

Com uma trajetória marcada pela articulação técnica e política, Lauro Bacca, biólogo e um dos fundadores da Acaprena, traz reflexões contundentes sobre os desafios do ativismo ambiental no Brasil.  

Embora importantes conquistas tenham sido alcançadas, como a criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí e a aprovação da Lei da Mata Atlântica, vivemos hoje um momento de esvaziamento do ativismo e de reação contra políticas ambientais. “Estamos enfrentando uma crise de lideranças. E há um agravante: muitos jovens não se sentem convocados a lutar por essas causas, talvez por viverem uma realidade mais confortável.”

Entre os principais legados do ativismo da Acaprena está a inserção da pauta ambiental no debate público. A entidade tem trabalhado de forma constante pela criação e melhoria de legislações ambientais, pela divulgação de pautas ambientais na imprensa regional e pela conscientização da população. “Ainda enfrentamos desafios, o aumento da produção de resíduos e os retrocessos legislativos, como o avanço do chamado PL da Devastação.” Lauro destaca também a importância de mudar o paradigma de relação com a natureza. “Precisamos substituir uma visão antropocêntrica por uma visão ecocêntrica.” Apesar das ameaças, ele enxerga sinais de transição para uma consciência ambiental mais ativa. “Falta agora os líderes políticos perceberem que é possível melhorar a qualidade de vida sem destruir o meio ambiente.”

Ao relembrar o processo de criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí, Lauro reconhece o protagonismo de lideranças como Wigold Schäffer, João de Deus Medeiros e a potência do trabalho coletivo. No entanto, alerta para as dificuldades enfrentadas durante o processo, como a disseminação de informações distorcidas e o medo provocado por boatos infundados: “Diziam que 400 mil pessoas seriam retiradas do local. E mesmo proprietários fora da área do parque se sentiam ameaçados.”

Apesar das dificuldades, o projeto foi adiante. Apenas 12 propriedades foram desapropriadas para a criação da Unidade de Conservação, cinco delas já indenizadas. “Foi uma experiência difícil, com momentos traumáticos, mas extremamente rica e positiva”, relata. Ele observa, no entanto, que novos desafios surgem, como a discussão sobre eventuais sobreposições com terras indígenas: “É uma questão sensível, que precisa ser tratada com diálogo e responsabilidade, sem generalizações.”

Destruição na Serra do Itajaí Mata Atlântica

Testemunhando a triste devastação das Araucárias, em desmatamentos que corriam soltos nos anos 1980

Passeata no Centro de Blumenau em protesto contra a intenção de se instalar na cidade uma Usina de Gaseificação do poluente carvão mineral

Grupo da Acaprena numa das 59 travessias do rio Garcia, procurando conhecer a região, o que ajudou muito na luta pela criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí

Destruição na Serra do Itajaí; Testemunhando a triste devastação das Araucárias, em desmatamentos que corriam soltos nos anos 1980; Passeata no Centro de Blumenau em protesto contra a intenção de se instalar na cidade uma Usina de Gaseificação do poluente carvão mineral; Grupo da Acaprena numa das 59 travessias do rio Garcia, procurando conhecer a região, o que ajudou muito na luta pela criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí; ante a notícia de que as espetaculares Sete Quedas do rio Paraná iriam desaparecer, a Acaprena encheu um ônibus com mais de 40 participantes para conhecer o espetáculo, prestes a sumir para sempre sob as águas da Represa da Hidrelétrica da Itaipu Binacional. Fotos: Lauro Bacca.

Instituto Çarakura: arte, educação e afeto para restaurar vínculos com a Mata Atlântica

Em Florianópolis (SC), o Instituto ÇaraKura cultiva mais do que mudas de árvores: cultiva vínculos afetivos entre pessoas e florestas. Fundado a partir das vivências no Sítio ÇaraKura, desde 2017 o Instituto vem se consolidando como uma referência em educação ambiental aliada à arte, à permacultura e à restauração ecológica da Mata Atlântica.

“A gente quer proporcionar uma experiência viva como ferramenta de transformação”, explica Andrea de Oliveira, pedagoga e presidente do Instituto. Essa proposta se materializa quando crianças entram na floresta com enxadas de bambu adaptadas às suas mãos pequenas. Ali, escutam histórias, desenham, tocam o solo. “Elas se envolvem com muito entusiasmo”, conta Andrea. “Esse contato com a natureza e com as expressões artísticas resgata questões culturais e estimula o encantamento com a vida.”

O Sítio ÇaraKura, que deu origem ao Instituto, permanece como núcleo das ações: “É um lugar que desperta memórias da infância e ajuda a criar um vínculo afetivo com a Mata Atlântica.” Com sua estética rústica e estruturas feitas por bioconstrução, ele convida a uma reconexão profunda. “Tudo ali é parte da experiência, até o banheiro de chão de terra”, relata Andrea. O espaço acolhe desde grupos escolares até formações para educadores. A atuação do instituto também é marcada por projetos de restauração ecológica baseados na permacultura, filosofia que orienta práticas integradas e sustentáveis, com uso consciente dos recursos locais. “A gente fecha ciclos. Usa o que tem, escuta o território. São soluções simples, mas muito eficazes, que fortalecem a autonomia das comunidades.”

Uma das principais estratégias de restauração hoje dentro da abordagem educativa são as atividades de educação florestal. “Queremos renovar o olhar sobre a educação ambiental, trazendo propostas que vão desde atividades imersivas até projetos de educação florestal”, afirma Andrea. “Buscamos implementar trilhas, que chamamos de trilhas da restauração ecológica, e vivências imersivas na floresta, não só nas áreas já restauradas, mas, principalmente, naquelas que ainda precisam ser restauradas.”

A transdisciplinaridade é um eixo estruturante. O Instituto busca integrar saberes populares com o conhecimento técnico e científico. “Quando a comunidade se reconhece nos processos, ela se envolve mais, com pertencimento e afeto. Atuamos a partir de uma escala afetiva, onde o encantamento é o ponto de partida.”

Em tempos de crise ecológica e desconexão com a natureza, o trabalho do Instituto ÇaraKura mostra que restaurar a floresta também é restaurar relações, com a terra, com os outros, com o afeto, com a brincadeira e com a nossa própria história.

Desenho de educação ambiental realizado com as crianças pelo Instituto Çarakura

Atividades de educação ambiental realizadas com as crianças pelo Instituto Çarakura

Visita no Instituto Çarakura durante o encontro das Unidades Regionais do Pacto pela Mata Atlantica

Visita no Instituto Çarakura durante o encontro das Unidades Regionais do Pacto pela Mata Atlantica

Visita no Instituto Çarakura durante o encontro das Unidades Regionais do Pacto pela Mata Atlantica

Atividades de educação ambiental realizadas com as crianças pelo Instituto Çarakura e visita das Unidades Regionais do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. Fotos: Arquivo Instituto Çarakura e Carolina Schäffer.

Autora: Thamara Santos de Almeida.

Revisão: Carolina Schäffer e Vitor Lauro Zanelatto.

Foto de capa: Gabriel Eloi de Marchi. 

Fonte: https://apremavi.org.br/a-mata-atlantica-resiste-com-solucoes-que-florescem-em-rede/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAadFu4ele7EM8fbljbrtCUYPkUiAKjnm1eflG5UEdjOAXUMXBoVbW3XeWRbm5g_aem_FrgHFn-0e7jcX3VEPPSbMg